segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Comentário curta 'Assunto de Família', exibido dia 22/01/12 na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Há um indiscutível poder em curtas-metragens (refiro-me aos bons) em sintetizar em imagens sentimentos complexos, porém concisos, em seus poucos minutos. Talvez a categoria 'curta' seja o privilegiado momento do experimento em cinema. Isso torna-se ainda mais evidente na realidade do Brasil uma vez que esta categoria de filmes dificilmente saem dos circuitos de mostras e festivais de cinema.

Como exemplo paradigmático temos 'assunto de família'. Dono de uma narrativa simples, somos convidados a conhecer o cotidiano de uma ordinária família em dia de jogo na tv. O cenário fechado, de um apartamento paulistano, com rarefeita luminosidade parece dialogar com a quase ausência de interação afetiva entre os personagens. Temos o patriarca que sem as calças se espalha na poltrona enquanto ora interage com a tv ora critica a mulher. Ela, por sua vez, busca escapar de um cotidiano machista através de pequenos prazeres como  fumar um cigarro escondido do marido ou perceber-se ainda mulher frente ao espelho. É um retrato do amor solitário.

 Os filhos, dois rapazes, demonstram os oceanos que distanciam suas personalidades em sutis interações, quase sempre demarcadas por uma tensão animalesca, que parece tornar-se apática num cotidiano individualista.

Lá, os personagens parecem dividir apenas o espaço. Nada mais. Enquanto cada um busca uma felicidade particular, ou aquilo que resta dela, uma expectativa de um reencontro paira. Contudo, o inevitável, transcrito mais uma vez na solidão, se apresenta em pequenos atos de esperança, onde, mesmo truncada, as interações pessoais ganham espaço através de inesperadas mas banais ações.


Juan Carlos
 

Programação 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes (24/01/2012)




Assista alguns trailers de algumas atrações de amanhã, 24/01/2012, na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes:




Na tarde de ontem, 22/01/2012, dentro da Mostra Panorama, foram exibidos quatro curtas, o cinema i assistiu e deu seua opinião, destacando o curta "Uma Primavera", de Gabriela Amaral Almeida.

Impressões - segundo dia

Um dos gostos mais amargos das mostras de cinema em geral é ter que montar sua própria programação, uma vez que o cronograma geral é vasto e simultâneo, fazendo com que o espectador escolha uma sessão e deixa duas outras para assistir sabem-se lá quando.

O sujeito enquanto transformação delineou o tom deste meu segundo dia de mostra. Seja um sujeito dilacerado pelas dores do amor flabubertiano do longa de Ricardo Miranda (Djalioh – 2011) ou o inquieto e sonhador de Selton Mello (O Palhaço – 2011). Mas as aproximações terminam neste ponto.

Djalioh é um filme de difícil acesso para o espectador que não queira se encontrar com sua intimidade. Entre uma narrativa visual, que busca nos devaneios de um texto romântico, o diretor dissolve as fragilidades humanas ali demonstradas em um cotidiano fantasmagórico, onde a sua maior companhia é um reflexo de si mesmo.

Por outro lado, a composição fotográfica das cenas propõe ora a clausura ora a amplitude. Tal dicotomia se complementa tendendo à primeira impressão, pois ali o trabalho de interpretação casado com uma câmera intimista não dá espaço de fuga: é você em frente a uma visceral verdade. Em momento ápice, Miranda propõe a tela escura como absoluto enquanto uma criança chora compulsivamente até que o som é esmagado com um baque que faz até a mais insensível alma perceber-se vulnerável.

Djalioh é uma experiência dos sentidos. Em certo momento o espectador se percebe intimamente inserido num jogo de narrativa e imagem tão dispares e concisas que, como numa alegoria da contradição, perceber-se inserido neste devaneio é uma opção privilegiada no modo em como se frui cinema.

domingo, 22 de janeiro de 2012


A turma do Cinema i também conferiu os curtas exibidos no dia 21/01/2012 aqui na mostra, confira nossa opinião e deixe seu comentário!

Mais uma vez a equipe do Cinema i marca presença e da a sua opinião sobre os filmes que estão sendo exibidos na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, desta vez o longa escolhido foi "Vou Rifar Meu Coração", documentário de Ana Rieper.

Impressões - abertura

Pouco antes de começar a 15ª mostra de cinema de Tiradentes, a cidade se preenche com todas as cores para receber durante oito dias um cinema que ainda insiste em ser monocromático. Tais cores acompanham as tendências visuais de cada tribo que decide embarcar numa suposta harmonia entre as disparidades. E assim, surge um comum objetivo: fruir cinema.

O cenário está pronto! E quando já não há mais como engendrar o tempo que carrega as amarras da criatividade, a mostra anuncia-se aberta através dos tocantes e costumeiros sons de Marcus Viana. O clima então se preenche com o enaltecimento a Minas, as belezas naturais e, principalmente, culturais... Uma tal de “mineiridade” encontra o auge emotivo na canção Pátria Minas.

E assim foi! De homenageado emocionado a comoção geral do público. E Minas, Minas, Minas... Os detentores, então, com as chaves da fruição em mãos, abrem as portas das tendas da imaginação, convidando todos a passearem pelos caminhos da contemporaneidade do cinema feito Brasil.

É cinema de mostra, com toda a complexidade que essa classificação pode representar. Cinema para relacionar-se, antes de qualquer outra coisa. Buscar na fruição múltiplas vazões às margens das esperanças, enquanto as expectativas tentam dizer que não somos palhaços infinitos tampouco heróis de costumes, mas sim, gente que busca compreender a multiplicidade em um “cinema adolescente”, que vive a procurar entre tantas cores alheias seus melhores tons.

Juan Carlos