segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Comentário 'Oma' e 'Uma Primavera', curtas exibidos dia 23/01/2012 na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes

A Série 2-Mostra Panorama, exibiu na tarde deste domingo quatro curtas bastante chamativos dentro da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Em sua maioria, os curtas trataram de questões presentes dentro das famílias atuais,
mostrando seus conflitos de uma forma realista, porém cada qual com um ponto de vista diferenciado, irei citar os meus dois favoritos:

As cores utilizadas foram fundamentais, o tom de cinza presente em 'Oma', documentário de Michael Wahrmann, permite, em meu ponto de vista, a visualização da tristeza presente na velhice da personagem principal. A forma com que foi filmado, mais fechado no rosto dos personagens, também foi fundamental para isto, focando as expressões tristes e cansadas da avó. Este curta foi marcante, impossível assistir e não lembrar de nossos avós e conhecidos mais velhos.


'Uma Primavera', de Gabriela Amaral Almeida, mostra todo o estresse de uma mãe que habituada com o clima da cidade grande e cheia de conflitos pessoais não consegue ter um momento de calma. As cores, num tom marrom, passam para o espectador a mesma senssação que a personagem esta vivendo, quando a mesma não sabe onde sua filha esta. Assim que a menina é encontrada, é possível reparar um tom azul nas roupas do namorado da garota, passando a senssação de tranquilidade para quem assiste, a mesma vivida pela mãe ao ter seu problema resolvido. Este curta ganha pontos por mostrar de forma realista a vida conturbada das pessoas que vivem nas grandes cidades, e que levam todo este estresse para onde quer que elas vão.

Comentário curta 'Assunto de Família', exibido dia 22/01/12 na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Há um indiscutível poder em curtas-metragens (refiro-me aos bons) em sintetizar em imagens sentimentos complexos, porém concisos, em seus poucos minutos. Talvez a categoria 'curta' seja o privilegiado momento do experimento em cinema. Isso torna-se ainda mais evidente na realidade do Brasil uma vez que esta categoria de filmes dificilmente saem dos circuitos de mostras e festivais de cinema.

Como exemplo paradigmático temos 'assunto de família'. Dono de uma narrativa simples, somos convidados a conhecer o cotidiano de uma ordinária família em dia de jogo na tv. O cenário fechado, de um apartamento paulistano, com rarefeita luminosidade parece dialogar com a quase ausência de interação afetiva entre os personagens. Temos o patriarca que sem as calças se espalha na poltrona enquanto ora interage com a tv ora critica a mulher. Ela, por sua vez, busca escapar de um cotidiano machista através de pequenos prazeres como  fumar um cigarro escondido do marido ou perceber-se ainda mulher frente ao espelho. É um retrato do amor solitário.

 Os filhos, dois rapazes, demonstram os oceanos que distanciam suas personalidades em sutis interações, quase sempre demarcadas por uma tensão animalesca, que parece tornar-se apática num cotidiano individualista.

Lá, os personagens parecem dividir apenas o espaço. Nada mais. Enquanto cada um busca uma felicidade particular, ou aquilo que resta dela, uma expectativa de um reencontro paira. Contudo, o inevitável, transcrito mais uma vez na solidão, se apresenta em pequenos atos de esperança, onde, mesmo truncada, as interações pessoais ganham espaço através de inesperadas mas banais ações.


Juan Carlos
 

Programação 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes (24/01/2012)




Assista alguns trailers de algumas atrações de amanhã, 24/01/2012, na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes:




Na tarde de ontem, 22/01/2012, dentro da Mostra Panorama, foram exibidos quatro curtas, o cinema i assistiu e deu seua opinião, destacando o curta "Uma Primavera", de Gabriela Amaral Almeida.

Impressões - segundo dia

Um dos gostos mais amargos das mostras de cinema em geral é ter que montar sua própria programação, uma vez que o cronograma geral é vasto e simultâneo, fazendo com que o espectador escolha uma sessão e deixa duas outras para assistir sabem-se lá quando.

O sujeito enquanto transformação delineou o tom deste meu segundo dia de mostra. Seja um sujeito dilacerado pelas dores do amor flabubertiano do longa de Ricardo Miranda (Djalioh – 2011) ou o inquieto e sonhador de Selton Mello (O Palhaço – 2011). Mas as aproximações terminam neste ponto.

Djalioh é um filme de difícil acesso para o espectador que não queira se encontrar com sua intimidade. Entre uma narrativa visual, que busca nos devaneios de um texto romântico, o diretor dissolve as fragilidades humanas ali demonstradas em um cotidiano fantasmagórico, onde a sua maior companhia é um reflexo de si mesmo.

Por outro lado, a composição fotográfica das cenas propõe ora a clausura ora a amplitude. Tal dicotomia se complementa tendendo à primeira impressão, pois ali o trabalho de interpretação casado com uma câmera intimista não dá espaço de fuga: é você em frente a uma visceral verdade. Em momento ápice, Miranda propõe a tela escura como absoluto enquanto uma criança chora compulsivamente até que o som é esmagado com um baque que faz até a mais insensível alma perceber-se vulnerável.

Djalioh é uma experiência dos sentidos. Em certo momento o espectador se percebe intimamente inserido num jogo de narrativa e imagem tão dispares e concisas que, como numa alegoria da contradição, perceber-se inserido neste devaneio é uma opção privilegiada no modo em como se frui cinema.