Um dos gostos mais amargos das mostras de cinema em geral é ter que montar sua própria programação, uma vez que o cronograma geral é vasto e simultâneo, fazendo com que o espectador escolha uma sessão e deixa duas outras para assistir sabem-se lá quando.
O sujeito enquanto transformação delineou o tom deste meu segundo dia de mostra. Seja um sujeito dilacerado pelas dores do amor flabubertiano do longa de Ricardo Miranda (Djalioh – 2011) ou o inquieto e sonhador de Selton Mello (O Palhaço – 2011). Mas as aproximações terminam neste ponto.
Djalioh é um filme de difícil acesso para o espectador que não queira se encontrar com sua intimidade. Entre uma narrativa visual, que busca nos devaneios de um texto romântico, o diretor dissolve as fragilidades humanas ali demonstradas em um cotidiano fantasmagórico, onde a sua maior companhia é um reflexo de si mesmo.
Por outro lado, a composição fotográfica das cenas propõe ora a clausura ora a amplitude. Tal dicotomia se complementa tendendo à primeira impressão, pois ali o trabalho de interpretação casado com uma câmera intimista não dá espaço de fuga: é você em frente a uma visceral verdade. Em momento ápice, Miranda propõe a tela escura como absoluto enquanto uma criança chora compulsivamente até que o som é esmagado com um baque que faz até a mais insensível alma perceber-se vulnerável.
Djalioh é uma experiência dos sentidos. Em certo momento o espectador se percebe intimamente inserido num jogo de narrativa e imagem tão dispares e concisas que, como numa alegoria da contradição, perceber-se inserido neste devaneio é uma opção privilegiada no modo em como se frui cinema.
Nenhum comentário:
Postar um comentário